REPENSANDO O CONSUMO DOS COSMÉTICOS 🤔

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POR DRA. ADRIANA LEITE
Médica dermatologista, atua na área de Dermatologia Clínica, Cirúrgica e Cosmiatria. Idealizadora da plataforma informativa e interativa Cosm-eticos.org, para transparência, consciência, sustentabilidade e fim dos testes em animais.

Sou dermatologista há 23 anos e confesso que, desde a minha formação universitária, nunca concordei com o uso de animais para o ensino médico. Como dermatologista, comecei a me incomodar com a maneira como a indústria cosmética se comporta.


PRÁTICAS QUESTIONÁVEIS

A maneira como os produtos chegam aos consumidores é, por vezes, problemática: muitos deles têm pouca comprovação de eficácia, com apresentações bem semelhantes entre as marcas. As informações nas embalagens são pouco claras, tanto para o prescritor quanto para o consumidor, e ler ou interpretar um rótulo pode se tornar tarefa complicada.

Aqui no Brasil, também são realizados testes em animais na produção de cosméticos. Diante desse cenário, comecei a me questionar sobre o meu papel como prescritora e parte integrante dessa cadeia de produção (prescrição-consumo), uma vez que tenho o papel de orientar os meus pacientes sobre o que devem usar em relação aos cuidados com a saúde.

São tantos produtos químicos sendo produzidos e poluindo, tanta extração da natureza feita até esgotá-la, tanto lixo descartado — com embalagens que envolvem plásticos, selos e fitas —, que hoje vivemos um esgotamento do planeta. É por isso meu interesse em procurar novas formas de consumir, de prescrever e de orientar meus pacientes. Afinal, sou uma agente da saúde, e propiciar saúde vai além: envolve cuidar do indivíduo, do ambiente em que vivemos, educar e compartilhar conhecimento adquirido para que todos possamos evoluir juntos.

Assim, criei uma plataforma digital, a Cosm-eticos.org, com a finalidade de ser um canal com a indústria e os médicos, incentivando mudanças nos processos de escolha de ingredientes, livres de “mentiras brancas” ou crueldade. Também é uma forma de poder compartilhar informação com o consumidor, para que ele possa compreender o que consome e, assim, fazer suas escolhas.


RESPONSABILIDADE NA MUDANÇA

Todos percebemos no cotidiano como nossa vida tem sido afetada pela poluição que produzimos. Alterações no clima, nos rios, nos mares e na qualidade dos alimentos. Os cosméticos que têm entre suas funções cuidar da aparência e realçar a beleza apresentam efeito contrário ao poluir e destruir o meio ambiente. Quer um exemplo? Chega o verão, prescrevemos milhares de protetores solares, vamos todos à praia, e quem observa o lixo que lá fica? Milhares de embalagens plásticas, não degradáveis, nas areias, no mar, também afetando quimicamente a flora e a fauna.

O que fazer então?

Resgatar o simples e o natural. “Less is more”, esse é o caminho. Os grãos de sementes trituradas, a casca do coco, as fibras de bambu e o arroz são os esfoliantes do momento. Estes são compatíveis com a natureza, não produzem danos. Mas nem todo natural é seguro. Natural significa ingrediente de fonte sem interferências químicas, mas certamente pode ser tóxico ou produzir reações alérgicas. Portanto, a prescrição do natural também deve ser feita baseada em conhecimento, e não em “curandeirices”. O ativo natural pode vir tanto do cultivo tradicional, com o uso de pesticidas, por exemplo, quanto do cultivo orgânico, envolvendo critérios rigorosos que abrangem desde a qualidade do solo, o tipo de sementes (livres de interferência seletiva) e a ausência de agrotóxicos.

Queremos compartilhar informação de qualidade para que as pessoas possam gastar seu dinheiro de forma digna, levando produtos de qualidade, com eficácia, e que todos venhamos a aprender como descartá-los corretamente para não descuidarmos do nosso papel no cuidado do meio ambiente. A força do consumidor pode incentivar a indústria cosmética a produzir produtos inteligentes, de baixo impacto ambiental, com embalagens que sejam recicláveis, ou até compostáveis, por que não? Menos plástico, menos celofane, mais qualidade.

Muito tem que ser discutido para que esses “novos valores” também não se tornem somente uma moda, sem profundidade ou continuidade. Repensar o consumo. Fazer a sua parte na escolha do que usa e consome em seu dia a dia — essa é a única saída para a longevidade da espécie humana.

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